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Da Redação

BRASIL – Desde a infância, os brasileiros aprendem que 13 de maio é um dia de celebração, por conta da abolição da escravatura no país – a última nação americana a libertar as pessoas escravizadas, em 1888. Mas quanto realmente sabemos sobre a data tão marcante para a história do Brasil?

O discurso em torno do assunto tem variado ao longo dos anos, conforme pesquisas são realizadas por historiadores e novas interpretações são apresentadas. Muitas vezes, o que foi dito sobre a assinatura da Lei Áurea há 20 anos não corresponde mais ao que tem sido dito na historiografia contemporânea.

Por isso, o Hoje em Dia levantou cinco afirmativas que fazem parte do imaginário de boa parte dos brasileiros e apresentou a historiadores para saber se são verdades ou mitos, de acordo com a atual historiografia. Confira o resultado:

1 – A princesa Isabel assinou a lei Áurea por ser abolicionista. Mito.

“Na data da assinatura da Lei Áurea (13/05/1888), Princesa Isabel governava em nome de seu pai, D. Pedro II, que se encontrava em viagem pela Europa, e só veio a receber a notícia mais de uma semana depois em Milão. Antes de ser uma benevolência da herdeira ao trono, a abolição da escravidão parece ter sido premeditada pelo Império, já que o Brasil vinha sendo pressionado por movimentos abolicionistas (internos e externos). Pedro se encontrava debilitado e Isabel precisava de apelo popular para emplacar o terceiro reinado. Apesar da abolição render festejos por vários dias seguidos, o tiro saiu pela culatra, já que os proprietários de escravos (não ressarcidos pelo governo) se voltaram contra o Império e apoiaram a proclamação da república no ano seguinte”, explica o professor de história Celso Idamiano.

2 – Os escravos não participaram efetivamente do processo de abolição da escravatura. Mito.

“Após extensa análise documental, o historiador Sidney Chalhoub chegou a conclusão que os negros não assistiram o processo abolicionista de forma passiva. Ele encontrou vários relatos nesse sentido, como escravizados reivindicando sua liberdade através de processos jurídicos; fugindo, se esses processos levassem a julgamentos que mantivesse a escravidão; denunciando para os juízes maus tratos dos senhores; aproveitando-se de disputas dentro das famílias em caso de herança para tentar a alforria; e também através disputas jurídicas para abaixar preço de indenizações para se conseguir as alforrias. Além disso, a própria resistência à escravidão, através da fuga para quilombos, suicídios, sabotagem à produção, assassinato de senhores levavam a um real clima de insegurança para as elites o que, indiretamente, levou a formação do discurso abolicionista”, afirma o doutorando em História Social da Cultura pela UFMG Felipe Malacco.

3 – A abolição da escravatura foi decisiva para a proclamação da República. Verdade.

“Uma das questões centrais para a monarquia brasileira era a escravidão. E nesse aspecto, a política imperial conseguiu desagradar todos os envolvidos. Em primeiro lugar, desagradava os escravizados e os defensores do processo abolicionista, pela forma violenta e gradual em que ocorreu o processo de abolição. Em segundo lugar, desagradava os donos de escravizados, por considerarem injusta não ter indenização para a libertação de escravizados. Em terceiro lugar, a morosidade do processo desagradava o exército, que pela grande participação de negros na Guerra do Paraguai, havia adotado uma posição favorável à abolição. Assim, o Império ia perdendo toda sua base política e não conseguiu se opor ao cada vez mais forte discurso republicano”, explica Malacco.

4 – A Lei Áurea acabou definitivamente com a escravidão no Brasil. Mito.

“Se pensarmos juridicamente, a afirmação pode fazer algum sentido. Afinal, no dia 13 de maio de 1888, foi assinado um decreto que oficialmente proibia a existência dessa podre instituição. Porém, em primeiro lugar, a abolição da escravidão não significava qualquer melhora na vida dos ex-escravizados. O projeto abolicionista não foi seguido de um processo de inserção dos negros na sociedade republicana que, por desigualdade de condições, não conseguiram acessar melhores posições sociais, permanecendo marginalizados. Além disso, ainda hoje existem o que chamam juridicamente de “situações análogas a escravidão”, principalmente em regiões demograficamente isoladas no interior do Brasil, que representam uma permanência de relações de trabalho em que o indivíduo não possui nenhum direito trabalhista. Trabalha para pagar a manutenção de sua existência. Exatamente igual aos escravizados do período colonial e imperial”, afirma Malacco.

5 – A princesa Isabel aproveitou que o pai estava em viagem para abolir a escravatura. Mito.

De fato, foi em sua terceira regência e com sua assinatura que foi sancionada a Lei Áurea. Mas falar que a princesa “se aproveitou da ausência do pai” para abolir a escravidão, e que só por essa ausência que a abolição ocorreu, é um exagero histórico. A abolição já era um inevitável caminho sem volta devido, principalmente, a pressões internacionais, do próprio movimento abolicionista brasileiro, da ação dos escravizados que lutavam por sua liberdade e do exército brasileiro. Se não fosse a princesa Isabel, certamente o imperador D. Pedro II ou a elite econômico-política que assumiu a república brasileira após 1889 decretaria o fim da escravidão.

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A capoeira foi trazida da África?

Já em solo brasileiro, a luta nasceu como uma criação dos escravos africanos da etnia banto, no século 17. Assim como o samba e as religiões de matriz afro, a capoeira era proibida até o final da década de 1930. Porém, nunca deixou de ser praticada e ganhou mestres de peso no decorrer dos anos, como os consagrados mestre Bimba e mestre Pastinha. Hoje, são mais de oito milhões de praticantes no mundo, sendo que, compreensivelmente, mais de seis milhões são do Brasil.

Zumbi dos Palmares também tinha escravos?

A pergunta costuma vir à tona sempre que o papel de resistência de Zumbi é questionado. O herói tinha, sim, escravos e colaborava para a manutenção do sistema no Quilombo dos Palmares, localizado na antiga capitania de Pernambuco (hoje Alagoas). Entretanto, é consenso entre os especialistas que, à época, seria muito improvável que Zumbi, um rei, tivesse ideais iluministas e abolicionistas em seu tempo. Portanto, sua luta era baseada mais na crença de que seu próprio grupo fosse liberto – o que não invalida seu histórico de resistência.

Manga com leite faz mal?

A resposta é não. E o que esse mito tem a ver com a história da escravidão? A questão é que a lenda foi criada justamente para impedir o consumo do alimento, uma vez que o leite era um dos itens mais caros adquiridos na colônia. Nenhum senhor “correria o risco” de ter a bebida consumida por um escravo e, paralelamente, como as mangueiras e seus frutos eram fartos, os cativos comiam muito a fruta que estava ali, à disposição. Surgira assim, a invenção da mistura venenosa. Afinal, se a história contada envolvesse apenas o suposto veneno do leite, logo cairia por terra na primeira vez que um feitor fosse flagrado bebendo a “preciosidade”. Ainda hoje, muitos acreditam que o leite com manga traz prejuízos ao organismo, o que é refutado com veemência por médicos e nutricionistas.

Os negros da África praticavam a escravidão?

Embora os números indiquem que até 10 milhões de negros da África cruzaram as águas rumo ao “novo mundo”, transformando-se em mão de obra escravizada, a prática escravista também existia no continente africano. Isso porque a prática é herança dos povos da antiguidade, com ocorrências na Grécia Antiga, bem como em Roma e na região da Mesopotâmia. Considerando a extensão territorial do continente africano, é absolutamente aceito que diferentes povos conviviam na mesma área, e a relação no século 16 era de disputas de poder e submissão. Desta maneira, os perdedores acabavam capturados e eram obrigados a trabalhar de maneira compulsória.  Além disso, muitas sociedades estabeleceram que a escravidão seria a punição para diversos crimes, incluindo roubo e adultério.

(Parte do texto foi extraído do Jornal Hoje em Dia/ Por Cinthya Oliveira)

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